A permanência da tinta

segunda-feira, janeiro 19, 2015




Você pensou que eu fosse uma revista e me recortou inteira. Ainda escuto o som das páginas se rasgando. Não é um som maravilhoso, apesar de assustador? Você não se importou com a lâmina da tesoura me rasgando, só foi lá e o fez, porque é isso que tem feito a vida toda. Não se importou com o vento levando tudo, tudo meu, cada pedaço, cada milímetro meu. Me deixando sem nada. Um nada. Só com a espera.

E...

E então você volta. Quer colar todos os pedaços novamente. Quer ir até aonde o vento espalhou as páginas, quer me encontrar, mas não consegue. Meu bem, eu nunca fui papel. Não dá mais, não dá mais.

Sou tinta. O papel é muito frágil. Se rasga, se molha, se amassa, se destrói. A tinta fica. Permanece. A agulha tatua, a tinta se incrusta na pele e jamais sai.

A tinta fica. Você não.

A tinta é vingança inofensiva. É a verdade sendo despejada. É a voz de alguém que se calou e agora quer gritar. A tinta é a minha única certeza.

A tinta te fará lembrar de tudo que já não é mais e de tudo que perdeu. A tinta é um aviso. É o spray que picha seu carro. É o texto que está esparramado sobre a rua do seu bairro. Sobre a sua calçada.
Ninguém vê escrito da tinta, só você. Claro, escrevi por você. Para você.


Num mundo onde pessoas são apenas duas coisas, posso dizer que onde eu era tinta, você era apenas papel. 

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1 comentários

  1. Amei o texto, Mônica.
    Parece que algumas pessoas pensam que podem aprontar, sumir e quando voltar tudo estará ao normal. O mais importante é que, apesar da dor, ainda ficam os aprendizados de cada lição.
    Abraços Mika,
    Pensamentos Viajantes

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